Marta Pratas, docente do 1.º ciclo do Ensino Básico com 30 anos de experiência no ensino, falou ao JMG sobre as aulas que decorrem agora através dos écrans de tablets ou computadores, e da forma como alunos e pais estão a lidar com esta nova realidade, trazida pelo coronavírus

O que mudou na sua vida devido à pandemia do novo coronavírus?

Com o alastrar da pandemia e consequente avolumar dos casos em contexto nacional, houve efetivamente um conjunto de mudanças na minha vida quotidiana, desde as ações mais básicas até à atividade profissional. A rotina diária, em que muitas horas eram passadas no exterior (fora do domicílio), obrigou a uma reorganização da vida dentro de casa, uma vez que passámos a permanecer a esmagadora maioria do tempo confinados.

Face ao contexto que vivenciamos e às recomendações para que se “fique em casa”, houve uma inevitável reorganização das saídas de casa que, se antes aconteciam a qualquer momento, hoje têm de ser planeadas, procurando que tudo o que seja necessário fazer no exterior possa ser concretizado numa única saída (preferencialmente semanal) e respondendo às necessidades de todo o agregado familiar.

Por apenso, e dada a natureza do vírus, este “obrigou” a um reforço sistemático da higienização das mãos e objetos, bem como a um “adiamento” dos convívios presenciais com familiares/amigos, até que as circunstâncias se modifiquem. Não obstante, e para compensar estas ausências físicas, denoto uma maior utilização e recurso às tecnologias com vista a suprimir este afastamento.

No que concerne ao contexto profissional, e como é de conhecimento geral, as aulas à distância vêm constituir um desafio altamente complexo, traduzindo a resposta a uma situação excecional, não antes vivenciada.

Trata-se, assim, de uma mudança muito significativa em diferentes domínios da vida diária que veio reforçar a nossa necessidade de proteção individual e coletiva (introduzindo novas ações de higienização, por exemplo) e reconfigurar os nossos cenários de atividade (profissional e extraprofissional).

Enquanto docente do 1.º Ciclo do Ensino Básico, com uma turma do 1.º ano a cargo, como tem sido o desafio do ensino à distância?

O ensino à distância é, pelo que a própria distância providencia, muitíssimo complexo e uma novidade para todos os intervenientes (professora, alunos e pais/cuidadores), o que o complexifica ainda mais. A natureza relacional e de interação entre professora-alunos é, neste novo “modelo educativo”, projetada para uma relação virtual, conduzindo a que os conteúdos tenham de ser veiculados de forma diferente, com apelos a maior criatividade da nossa parte e estratégias que, transversalmente, sejam frutíferas na receção pelos/as alunos/as.

Particularizando, e no caso concreto do grupo de alunos/as que integram a turma de primeiro ano da qual sou professora, o desafio é aumentado pela idade das crianças que, com seis-sete anos, ainda se encontram extremamente dependentes dos adultos para conseguir “trabalhar” à distância. Por tal se compreende que esta “metodologia” só é exequível e verdadeiramente eficaz com a colaboração do(s) adulto(s) com quem vive(m).

Por outro lado, acrescente-se o facto de que os conteúdos de primeiro ano são basilares à(s) aprendizagem(ns) futura(s) e é da máxima importância que fiquem bem consolidados. Torna-se, por isto, ainda mais desafiante que os objetivos de aprendizagem sejam efetivamente transmitidos/apreendidos.

O impacto da inexistência de aulas presenciais foi, no entanto, atenuado pelo produto da evolução tecnológica, tanto através das plataformas digitais que apoiam na partilha de materiais e conteúdos para facilitar a aprendizagem dos/as alunos/as (ClassDojo, Aula Digital), como de outras ferramentas que possibilitam a interação direta com os/as alunos/as (Zoom) ou a articulação com os seus pais/cuidadores (e-mail). As sessões síncronas são altamente relevantes uma vez que permitem estreitar não só a relação de proximidade entre professora-alunos/as, como também com os encarregados de educação. Estes últimos são peça-chave neste processo: mantêm a conexão e “ponte” entre professora-aluno/a e asseveram o supervisionamento/cumprimento das tarefas propostas.

É importante não esquecer que a situação é nova para todas as partes, incluindo para as crianças, daí que considere fulcral diversificar o tipo de trabalho proposto a desenvolver e possibilitar a realização de tarefas da forma mais lúdica possível, sem esquecer as aprendizagens que devem ocorrer nesta etapa do ano letivo.

O que tem sido mais difícil neste novo 'modelo' de ensino?

No que diz respeito aos maiores “desafios” ao “desafio” que é este novo modelo de “ensinar-aprender”, destacaria, numa primeira instância, os aspetos de natureza relacional: a inexistência de contacto físico (abraços, colo) e a impossibilidade de compreender, apenas através do olhar,o estado de espírito das crianças, as suas dificuldades. A proximidade física é muitíssimo importante no processo educativo/formativo de qualquer um de nós, - enquanto seres eminentemente sociais - pelo que o distanciamento, apenas minimizado pelas interações virtuais, constitui um dos grandes obstrutores a este “modelo” de ensino.

Por outro lado, tudo é novidade: os materiais têm de ser adaptados, os conteúdos lecionados de diferente forma. Temos de garantir que todos conseguem acompanhar o ritmo e conteúdos programáticos, sabendo obviamente que os tempos e condições que dispõem são diferentes. Mas este é o nosso papel e estamos aqui para o fazer. Ninguém imaginou esta situação: estamos a enfrentá-la com os recursos que existem da melhor forma que nos é possível.

Como têm os alunos, e os pais, correspondido ao que lhes tem sido pedido?

A efetivação deste modelo de ensino à distância deve-se, em grande parte, à colaboração dos pais/cuidadores no processo de aprendizagem, sem os quais este não seria concretizável.Quer isto dizer que é um trabalho que só é possível numa ação concertada em que todos (professora, alunos/as, pais/cuidadores) concorrem para a mesma finalidade.

De uma maneira geral, os adultos responsáveis pelo acompanhamento das crianças, - que são principalmente as mães - têm respondido de forma muito positiva, aderindo de modo entusiasta às tarefas propostas e procurando aconselhamento para orientar as crianças nas atividades e matérias que lhe são apresentadas.

No que concerne aos/às alunos/as, estes têm correspondido ao que lhes é solicitado de forma igualmente positiva, participando ativamente nas sessões síncronas e demonstrando elevada vontade de partilhar comigo, professora, e com os/as colegas aspetos múltiplos da sua vida quotidiana/ familiar. Considero muito importante que possam manter esses momentos de interação, de molde a conferir alguma “normalidade” a estes tempos “anormais”, através da manutenção dos laços (ainda que virtuais) com os/as colegas com quem partilham (ou partilhavam) a sala de aula.

Teme que esta seja uma experiência que marque os alunos pela negativa ou, pelo contrário, que lhes 'abrirá' horizontes?

O momento que estamos a viver é, para todos, muito particular, diferente de tudo aquilo que já experienciámos e, por tal razão, irá marcar certamente a vida de qualquer um de nós, independentemente da faixa etária. No caso dos/as alunos/as, considero que esta experiência definitivamente os/as marcará pelo seu caráter excecional, por ser diferente daquilo que viveram e voltarão a viver e pelas implicações que representou na sua vida em geral, e no seu percurso escolar em particular. Tal não implica que não considere que o confinamento social foi uma medida adequada, - pelo menos necessária - para conter a propagação do novo coronavírus.

Quanto ao seu impacto, considero que pode ser bidimensional: se, por um lado, pode “abrir horizontes”, nomeadamente, na utilização das novas tecnologias e na autonomização do estudo (até de fortalecimento da relação da criança com o(s) adulto(s) que a acompanha(m)), representa, por outro, a ausência (ainda que temporária) de contacto e convívio com os pares e adultos significativos que são extremamente importantes, sobretudo num período do desenvolvimento em que estão a formar a sua personalidade.

Considera que a nossa vida coletiva poderá alguma vez voltar ao que era antes deste vírus aparecer? Porquê?

Com o atual/gradual processo de desconfinamento, a vida coletiva tem, inevitavelmente, de sofrer algumas alterações: contenções na interação entre sujeitos e na permanência em espaços públicos de permanência/ frequência comum. Não carregamos num botão e o vírus desaparece: somos coletivamente responsáveis por zelar pela proteção uns dos outros.

Neste sentido, a curto prazo creio que a vida não retomará à normalidade que pautava antes da propagação do novo coronavírus. No entanto, creio igualmente que quando surgir e estiver acessível um qualquer tratamento (vacina ou medicamento), apto a conter os efeitos do vírus, vamos regressar à vida quotidiana, desejosos de momentos de confraternização e ávidos de nos abraçarmos sem medos.

Obviamente que não podemos colocar em pausa e ignorar que vivemos este período: quando tudo isto passar, a vida coletiva continuará, um bocadinho diferente porque penso que estaremos todos mais conscientes das nossas vulnerabilidades, daquilo que é efetivamente relevante e da importância que temos na vida uns dos outros.

Como perspetiva que possam ser os próximos meses?

Não dispondo de dados suficientes para tecer uma previsão válida sobre como serão os próximos tempos, gosto, no entanto, de acreditar que esteja para breve a descoberta e disseminação de uma vacina, (ou qualquer outra forma de tratamento) que possa ser resolutiva na contenção do novo coronavírus.

Até que tal aconteça, perspetivo que tenhamos de continuar neste registo, mantendo todos os cuidados recomendados pelas entidades competentes e fortificando as ferramentas/estratégias para que o ensino à distância (até que se mantenha)seja frutífero no processo de aprendizagem dos/as nossos/as alunos/as.

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