Marina Domingues, coordenadora do projeto CLDS 4.ª Geração, teme que a situação de pandemia em que vivemos possa levar ao aumento dos pedidos de ajuda, a nível pessoal e profissional, mas sobretudo a nível psicossocial. Por outro lado, considera que conceitos como «vida» e «família» serão valorizados

O que mudou na sua vida devido à pandemia do novo coronavírus?

Tal como na vida de todos nós, esta situação de pandemia obrigou à reorganização da minha vida pessoal e profissional. Numa primeira fase, durante o confinamento, a nível pessoal passei a desempenhar funções múltiplas em casa, desde o apoio aos filhos, ao nível de acompanhamento escolar, mas também na procura que a convivência de 24 horas por dia fosse o mais saudável e harmoniosa possível, passando pela confeção de refeições várias e diferentes para não cairmos na monotonia. No fundo, passei, tal como a maioria das pessoas, a reinventar-me para poder ultrapassar com o máximo de segurança esta fase.

Profissionalmente os dias em regime de teletrabalho ganharam horas a mais, pois deixámos de ter a limitação física e tão necessária entre vida pessoal e profissional.

Nesta segunda fase, após o términus das aulas, verifiquei a regularização de horários com o regresso físico ao trabalho, o que permite “absorver” este novo normal. Com planos de contingência que vão permitindo a nossa salvaguarda pessoal ao nível de eventuais contactos de transmissão do vírus, adaptação de espaços, enfim toda uma mudança de encararmos e vivermos o nosso dia-a-dia.

O que foi necessário alterar no dia a dia do projeto CDLS 4.ª Geração – Marinha Social?

As alterações deram-se sobretudo ao nível das metodologias de trabalho. Ganhou uma expressão muito grande os acompanhamentos psicossociais a serem feitos por videoconferência, utilizando para isso as diferentes plataformas digitais que existem.

Na fase de confinamento trabalhámos a partir de nossas casas, pois toda a equipa CLDS 4G passou a estar em teletrabalho. Nunca interrompemos o nosso trabalho tendo-nos sido possível inclusive apoiar mais pessoas em simultâneo pois rentabilizámos os recursos de uma outra forma. Atendimentos presenciais foram realizados de forma muito esporádica e excecional.

Desde o dia 1 de julho, a equipa voltou às instalações, após a preparação das mesmas para que cada um dos técnicos ocupe espaços individualizados e seguros. Mantemos os acompanhamentos por videoconferência pois têm surtido efeitos muito positivos e a adesão das pessoas tem sido também muito positiva.

Pensamos que esta seja uma metodologia de trabalho que veio para ficar e ser praticada. Só em casos muito específicos é que os atendimentos são realizados presencialmente, sempre sob marcação. Estes atendimentos presenciais são realizados nas máximas condições de segurança, para podermos minimizar possíveis contágios.

Quais são as principais queixas/problemas de quem vos procura?

O nosso apoio é ao nível do apoio psicossocial que envolve um trabalho multidisciplinar com as pessoas que ou nos procuram diretamente, ou nos são encaminhadas por outros serviços. Não houve até ao momento um aumento exponencial da procura por esse serviço específico de psicologia (tendo-se registado o fluxo expectável de entradas), mas sim pelo apoio ao nível alimentar, dadas as situações de desemprego e pela falta de condições com que muitas pessoas ficaram pela situação pandémica.

O CLDS 4G Marinha Social e a ADESER II, IPSS são parceiros do Projeto “Todos Pela Marinha” que pretende dinamizar e responder a estas situações prementes, que não tenham resposta nas instituições da comunidade.

Enquanto serviço específico, o CLDS encontra-se a realizar a triagem das pessoas que necessitam de ajuda, contando para isso com a rede de parceiros existentes na comunidade para podermos responder de forma rápida e eficaz a este novo problema social que vai afetando sobretudo quem se encontrava em situação de emprego precário, nomeadamente, trabalho temporário.

Como se consegue promover a inclusão social em tempo de pandemia?

A inclusão é, naturalmente, uma preocupação transversal à pandemia. Esta apenas veio tornar mais visíveis algumas situações que estariam camufladas pela não necessidade de acesso a diferentes serviços, e que, com o fecho físico de muitos serviços, tornou-se mais difícil o acesso aos mesmos.

Por exemplo na requisição de subsídios de desemprego, na procura de emprego, no acesso a consultas médicas, renovações de documentos, entre outros, temos tido um papel importante a fazer a ponte com o cidadão que não tem conhecimentos suficientes para o fazer sozinho, ou não sabe como o fazer, ou inclusive não tem equipamentos informáticos que o permitam fazer.

Procuramos responder e criar condições de acesso aos diferentes serviços para estas pessoas, sendo este serviço um promotor de inclusão para estes cidadãos.

Já está a ser realizado algum trabalho junto das coletividades locais? Em que medida?

Neste momento, o trabalho previsto com as coletividades e associações está a ser repensado sobretudo ao nível da metodologia a utilizar. As ações previstas irão sofrer algumas modificações na sua forma de trabalho, mais uma vez privilegiando as novas tecnologias de informação e comunicação, permitindo inclusive chegar a mais associações em simultâneo.

Como perspetiva que possam ser os próximos meses?

Os próximos meses serão certamente de muita adaptação a este novo normal que passará a fazer parte do nosso futuro como sendo uma certeza. Os procedimentos sofrerão alterações e a relação com as pessoas igualmente. O distanciamento social imposto pela necessidade de proteção social erguerá barreiras para uma necessidade do ser humano de estar próximo com os outros. Penso que a valorização da vida e a valorização da família será crescente.

Como reverso da medalha temo que os casos com necessidade de apoio vão sendo cada vez maiores, quer a nível de organização pessoal, quer a nível profissional mas sobretudo psicossocial, pois a nossa capacidade de resiliência é testada todos os dias e nem todos teremos a mesma capacidade de “dar a volta por cima”.

A perda de familiares, a perda de empregos, a perda de rendimentos é algo que será fulminante nesta capacidade de resiliência que o ser humano ainda tem.

A nossa vida não deverá voltar ao que já conhecemos, às dinâmicas interpessoais que tínhamos, mas teremos a capacidade de nos reinventar e de poder fazer diferente e melhor.


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