Natural da Marinha Grande, a viver e a dar aulas em Londres, João Caridade deu asas à imaginação e colocou, literalmente, as mãos à obra, durante o confinamento a que se viu obrigado, para serigrafar t-shirts, inspiradas na sua forma de ver o mundo… e na cidade que o viu nascer

 

Costuma dizer-se que a necessidade aguça o engenho e foi o que aconteceu a João Caridade, de 35 anos. A viver há uma década em Londres, na Inglaterra, onde dá aulas de design gráfico na escola secundária Sir George Monoux College, em Walthamstow, não teve alternativa ao confinamento decretado em função da pandemia de COVID-19.

Segundo contou ao JMG, “a pandemia afetou a minha vida profissional no sentido em que tive que dar aulas online durante algum tempo, e adaptar-me a uma forma diferente de comunicar com os estudantes e experimentar novas técnicas de ensino”, acrescentando que “de momento, o facto de as escolas em Inglaterra não fecharem cria algum receio de estarmos mais expostos ao Covid, visto ter que lidar com um grande número de alunos e colegas todos os dias”.

No entanto, durante a primeira vaga, ao ver-se fechado em casa e sem possibilidade de recorrer a uma empresa que lhe pudesse imprimir as t-shirts em que já estava a trabalhar, não hesitou e resolveu, ele mesmo, de forma artesanal, avançar com o trabalho prático.

De acordo com João Caridade, o projeto surgiu como uma extensão do seu trabalho artístico. “Há já algum tempo que era minha intenção criar um estúdio de serigrafia e imprimir o meu trabalho, de forma a criar trabalho autónomo, sem ter que depender de terceiros visto durante este período haver uma grande limitação a nível de serviços. Decidi então pôr mãos à obra e construir tudo de raiz”.

Assim, foi a partir do seu “shed”, um pequeno anexo do seu jardim, que João Caridade criou o que lhe fazia falta para desenvolver o trabalho: “construí tudo, desde uma mesa a ecrãs, e desenvolvi todo o processo necessário para a prática da serigrafia, que aprendi em livros e no Youtube”.

Segundo relatou, “a inspiração para os meus desenhos está intimamente ligada com a maneira como vejo o mundo, um mundo onde tudo é possível. Por exemplo, na T-shirt Charlot, o desenho vem da justaposição das minhas memórias do Café Charlot nos fim dos anos 90 (onde o Zé criou um ambiente único) com uma narrativa ficcional onde um tronco com pés passa na rua como se nada fosse. O meu trabalho vive da interseção entre o fantástico e o banal, e cria um género de narrativa invulgar, com uma certa dose de humor, comentário, memória e influências literárias”.

O jovem empreendedor, que estudou Design na Secundária Acácio Calazans Duarte e se licenciou em Artes Plásticas na ESAD das Caldas da Rainha, tem recebido um bom feedback relativamente às t-shirts. “O projeto está no início mas tenho recebido críticas positivas em relação ao produto em si e a forma como tenho promovido embalagens sustentáveis, feitas de pacotes de cereais ou materiais descartados”.

João Caridade assume que é sua intenção “sensibilizar negociantes e mudar perspetivas em relação ao excessivo uso de papel/plástico para promoção e comercialização de produtos o que, por sua vez, tem um impacto ambiental desastroso para o nosso planeta. A ideia é todos contribuirmos para um mundo melhor e não destruir o que temos de melhor”.

O professor marinhense lamenta, apenas, não poder, devido à pandemia, “promover a marca Caridade e comunicar de forma mais efetiva com o público, fazer mercados de rua, ter contacto direto com lojas, fisicamente falar com pessoas. Um conceito simples, de momento um luxo inacessível”.

Os produtos de João Caridade, cujos desenhos são alusivos às suas memórias da Marinha Grande, estão disponíveis no site www.caridade.co.uk e também no Instagram, em @caridadeworld.

“Gostava que o meu projeto servisse de inspiração para os jovens marinhenses, que os fizesse sentir que “só” é preciso uma ideia para fazer algo de original e único”, referiu ainda João Caridade ao nosso jornal.

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