Após a última eleição presidencial assumi publicamente a posição ingrata de defender a formação de um governo entre o PS e o PSD. Essa posição trouxe-me alguns dissabores entre amigos e apoiantes, convencidos de que estaria a atraiçoar o meu passado de esquerda ao defender para Portugal uma solução governativa que, mais uma vez, deixava de fora o PCP e o Bloco de Esquerda, nomeadamente depois do desastre social da solução PSD/CDS. Ao tempo, todavia, não tive qualquer dúvida de que aquela era a solução que melhor servia o futuro de Portugal e dos portugueses e, passados estes meses, não vejo razão para alterar o que então pensei.

As causas que me fizeram optar, naquelas circunstâncias, pela solução do Bloco Central em vez de uma outra solução à esquerda, cuja probabilidade previ antes das eleições em texto publicado no Jornal de Notícias, são agora um pouco mais evidentes, nomeadamente: (1) um governo do PS baseado no pessoal político herdado de José Sócrates e com os vícios acumulados no partido, não teria a vontade e a competência para fazer a profunda mudança de políticas que considerei necessárias; (2) o PCP e o Bloco de Esquerda tinham convicções a meu ver erradas das dificuldades nacionais e objectivos de política partidária inconciliáveis com a realidade nacional e europeia; (3) que um Governo do PS e do PSD representava um apoio parlamentar inequívoco para quatro anos e forçaria os dois partidos a forjarem uma solução mais realista para os problemas nacionais, nomeadamente se tivessem uma base política, como então defendi, baseada numa estratégia nacional clara apresentada pelo Presidente da República, que seria o garante da sua execução; (4) evitava aos partidos da esquerda as dificuldades da difícil situação económica e financeira do País, que estes partidos só poderiam complicar ainda mais.

Claro que a minha posição era condicionada pela consciência dos gravíssimos desafios que Portugal enfrenta, nomeadamente a dívida externa e a estagnação económica, bem como a necessidade de grande lucidez política e competência técnica para dar um novo rumo ao País e vencer a crise. Se outras fossem as circunstâncias, outra teria sido a minha posição, ou seja, coloquei o que considerei ser o interesse nacional de médio prazo acima das minhas convicções ideológicas e fiz isso baseado numa análise de probabilidades que considerei ser do mal menor, já que o pessoal político em presença seria sempre, com o actual modelo de escolha, de má qualidade para a gigantesca tarefa com que o País está confrontado.

As minhas razões de então, penso serem hoje razoavelmente visíveis. Como previ, a aposta no mercado interno falhou, a estagnação económica continua e a dívida externa não para de crescer, colocando um cutelo na cabeça das famílias portuguesas. Mas talvez a razão que melhor demonstra, no curto prazo, a inviabilidade da presente solução governativa reside na impreparação, incompetência e ligeireza com que a questão do sistema financeiro e, particularmente, da Caixa Geral de Depósitos está a ser conduzida. Em que o Governo de António Costa se encontra manietado pelos compromissos assumidos à esquerda, de que depende a manutenção do Governo, ao mesmo tempo que é confrontado com a urgência de decisões políticas e técnicas em que nenhum dos parceiros pode ajudar a pensar e a definir, já que decidiram não ser parte da solução. Mais, as soluções do PCP e do Bloco de Esquerda são inconciliáveis com os compromissos assumidos, ainda que mal, pelo Estado português no passado. Ou seja, como então avaliei, a questão do sistema financeiro e da dívida estão no centro da inviabilização do actual Governo do PS, para além de outras razões que também existem. Trata-se de uma clara tempestade perfeita: por um lado as políticas económicas do PS não permitem pagar a dívida e as ideias sobre a dívida do PCP e do Bloco não permitem a sobrevivência da economia.

Foram estes os perigos que propus se evitassem através da solução do Bloco Central, que, ao mesmo tempo, evitaria o desastre que para a esquerda portuguesa resultará, inevitavelmente, da presente solução governativa. Para além de outros erros já cometidos, a questão do sistema financeiro mostra-o inexoravelmente.

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