Pedro Beltrão, investigador marinhense de 42 anos, está a dar cartas no Reino Unido onde lidera um grupo de investigação. Licenciado em Bioquímica e doutorado em Bioinformática assume que gostava de vir a trabalhar em Portugal apesar dos ‘poucos’ recursos de que os cientistas dispõem. É o único investigador português envolvido num projeto que estuda a viabilidade de usar medicamentos já existentes no combate à COVID-19

 

Desde 2013 que lidera um grupo de investigação no Reino Unido na área da Bioinformática. Como era o seu dia-a-dia e em que projeto(s) estava a trabalhar quando surgiu a pandemia?

Para responder a esta pergunta teria que entrar em detalhes de biologia que iam demorar um bocado a desenvolver. Sem querer maçar quem esteja a ler, de uma forma geral o meu grupo de investigação tenta desenvolver e usar métodos computacionais para perceber como é que as células funcionam.

Hoje em dia a biologia tornou-se numa ciência mais rigorosa e onde a quantidade de informação que é produzida em cada experiência pode ser de tal dimensão que acaba por ser essencial usar computadores para analisar os dados. Um dos problemas que nós estudamos é tentar prever computacionalmente qual será o impacto que uma mutação no nosso ADN possa vir a ter nas características do organismo. Por exemplo, tentar perceber que mutações podem vir a levar a doenças humanas.

Há cerca de um ano que está a trabalhar num projeto para perceber de que forma o novo coronavírus entra no organismo e como o combater, sendo o único português no grupo de trabalho. Que descobertas já conseguiram fazer?

É importante realçar que se trata de uma grande colaboração internacional, incluindo mais de 200 cientistas espalhados pelo mundo. A contribuição do nosso grupo é uma de muitas contribuições e tem sido no uso de métodos computacionais para ajudar na análise da informação produzida nas experiências.

O objetivo deste projeto que decorre há mais de um ano é tentar perceber como é que o vírus SARS-CoV-2 toma controlo da célula que infeta. Todos os vírus dependem das células infetadas para se reproduzirem e espalharem para outras células e outros indivíduos.

A nossa ideia seria que ao perceber as partes da célula humana que o vírus precisa, poderíamos tentar reutilizar fármacos que já são usados para outras doenças humanas para atacar essas funções da célula que o vírus precisa.

Ao final de um ano de trabalho descobrimos mais de 100 fármacos que no laboratório reduzem a proliferação do vírus e destes 16 estão agora em ensaios clínicos. Temos esperança que alguns destes 16 possam vir a ter um impacto real no tratamento de COVID.

Esta foi a área em que sempre quis trabalhar? Porquê?

O nosso trabalho normalmente não tem a ver com vírus ou o combate à infeção. Só começámos a trabalhar nisso porque achámos que poderíamos ajudar.

Em relação a trabalhar em ciência é mesmo uma paixão. Antes da universidade tinha pensado em medicina, talvez porque seria uma profissão de prestígio, ou informática talvez por influência do meu irmão mais velho. Felizmente acabei por não ter média para entrar em medicina e quando vi o curso de bioquímica achei que seria interessante.

No fundo acabei por voltar ao meu interesse em informática quando me especializei na utilização de informática na área da biologia.

Ser cientista é ser eternamente curioso, como as crianças. É um prestígio poder trabalhar numa coisa que se gosta e poder explorar uma curiosidade pessoal sem que o resultado desse trabalho tenha que ter um impacto imediato na sociedade.

Tem algum objetivo traçado em termos de realização profissional? Qual?

Como disse antes, eu gosto do que faço e quero continuar a poder fazê-lo. Conseguir ter condições de trabalho para poder continuar a fazer o que quero é o meu objetivo principal mas isso está mais ou menos garantido. Um objetivo que tenho começado a formular é poder fazer mais pela ciência em Portugal. O nosso país está atrasado em relação a outros na interligação da investigação com medicina, no que toca especificamente ao uso de dados de genómica, incluindo a sequência de ADN. Em parte isto também reflete uma limitação na capacidade de análise de dados em biologia.

Quero poder tentar contribuir para o treino de mais pessoas nas áreas em que trabalho e ajudar a estabelecer contactos entre cientistas a trabalhar em Portugal e outros no estrangeiro.

O que se segue? (área de investigação, país…)

Por acaso estou neste momento numa altura de mudança e passei uma boa parte do ano passado a entrevistar para uma futura posição. Depois disto decidimos então que para o ano vamos para Zurique e eu vou assumir uma posição de professor e chefe de grupo de investigação na Universidade do ETH. É uma posição que oferece recursos fantásticos para fazer investigação e um grande privilégio.  

Portugal oferece condições para um cientista como o Pedro poder desenvolver o seu trabalho? Já considerou a possibilidade de voltar ao país para trabalhar?

A ciência em Portugal tem sido uma área onde tem havido um progresso notável ao longo das últimas décadas. Tem havido políticas relativamente consistentes de apoio que não têm dependido do partido que está no poder.

Infelizmente desde a crise de 2008 a ciência foi das áreas que mais sofreu com os cortes orçamentais e apesar do progresso estamos muito longe do que é praticado em outros países como a Alemanha, Inglaterra, Áustria entre outros.

É incrível a boa ciência que se faz em Portugal com os poucos recursos que são dados aos cientistas. Mesmo com estas lacunas considerei e considero a possibilidade de trabalhar em Portugal. No ano passado ainda tentei concorrer a dois sítios onde há boas condições de trabalho mas a oportunidade acabou por não se realizar.

Na realidade as condições oferecidas mesmo nos melhores sítios de Portugal ficam muito aquém da minha atual posição e muito menos na posição que vou ter em Zurique. Teria que sacrificar bastante do ponto de vista profissional mas teria, claro, benefícios do ponto de vista pessoal.


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Zurique é o próximo destino do investigador marinhense

“Ainda sonhamos que um dia voltamos para viver a reforma em São Pedro”

Pedro Beltrão

42 anos

Natural da Marinha Grande

Qual foi o seu percurso escolar e académico?

Antes da universidade fiz todo o ensino na Marinha Grande onde também nasci. Fui para a Universidade de Coimbra fazer a licenciatura em Bioquímica e fiz um estágio de um ano na Universidade de Aveiro, ainda parte da licenciatura. Depois disso tive a sorte de conseguir uma bolsa de doutoramento pelo programa doutoral GABBA (http://gabba.up.pt/) no Porto que infelizmente já não tem financiamento para novas gerações. Este programa de doutoramento permitiu-me ir fazer o projeto no Instituto Europeu de Biologia Molecular (EMBL na sigla inglesa) em Heidelberg, na Alemanha, e com esse trabalho defendi a tese de doutoramento com especialidade em Bioinformática na Universidade de Aveiro. Depois do doutoramento comecei o meu trabalho como investigador na Universidade de Califórnia, em São Francisco, onde estive 5 anos, e desde 2013 voltei para a Europa para gerir o meu grupo de investigação no Instituto Europeu de Bioinformática em Cambridge.

 

É casado, tem filhos?

Partilho a vida com a Sofia e a nossa filha Inês de dois anos. Curiosamente a Sofia é de Leiria mas só nos conhecemos em Londres.

O que mais gosta na Marinha Grande?

São Pedro de Moel é a primeira resposta que me vem à cabeça. Ainda sonhamos que um dia voltamos para viver a reforma em São Pedro. Também gosto que tudo esteja relativamente perto, especialmente depois de morar em São Francisco e Londres, tenho alguma saudade de poder ir a pé para os diferentes sítios.

Quando volto à Marinha Grande também sinto obviamente muita nostalgia. São muitas memórias em cada canto da cidade que são ainda mais fortes depois de viver por estes sítios diferentes.

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