“O mais alegre não veio, teve medo do vírus, e não foi o único. Todos os anos aqui vimos, mas este ano não veio a família toda”. Por entre lamentos dos azares do pinhal e a referência aos ausentes, todos da Marinha Grande, a mulher lembrou o tradicional almoço: “veio o coelho com o arroz e as ervilhas, para a sobremesa é uma ginjinha e bolo de laranja, e ainda temos pataniscas de bacalhau e pastéis de chouriço ao lanche”.

O repasto foi confirmado pelo avô Rogério António, de 79 anos. Apesar do receio sobre a pandemia, reinava a boa disposição ao início da tarde no seio do grupo, junto ao parque de campismo da Orbitur.

“Estive na guerra no Ultramar, apanhei tantas epidemias e aguentei. A mim isto não me assusta”. Com sol e tempo sereno a ajudar, à chegada ao Parque da Portela ao início do almoço, falámos com Joaquim Matos de 72 anos, da Ordem. Sentado junto a uma das mesas do parque, o marinhense lembrou os tempos em que andou na guerra colonial, e da ditadura dirigida por Salazar.

“O Salazar não gostava do vermelho e que nos chamássemos de camaradas, por ser um termo usado pelos comunistas. Venho todos anos à apanha da espiga, mantive sempre a tradição. A tradição era uma mulher que ia apanhar a espiga e vinha um homem que a agarrava”, disse Joaquim Matos em tom de brincadeira.

“Este ano vieram menos”


Ainda na Portela, Cátia Ricardo de 22 anos, de Picassinos, disse ao JMG que vem à “apanha da espiga” desde que entrou no Rancho de Picassinos, há 16 anos. A almoçar com a família numa das mesas, lembrou que o grupo que todos os anos cumpre a tradição este ano diminuiu.

“Estamos a mais de três metros uns dos outros. Estamos a cumprir as regras do distanciamento”, disse-nos uma mulher pertencente a outro grupo que acabava de almoçar, no lado direito da estrada, ao 1.º corte à entrada de São Pedro, no sentido de quem vem da Marinha. “Somos família, amigos e parentes. Somos amigos todo o ano. O vírus não nos impediu de vir conviver”, desabafou a senhora.

Em ambiente alegre e em que algumas pessoas usavam máscara de proteção e se mantinham minimamente distanciadas, falámos com um homem de meia idade, também da Marinha Grande, que ouvia num leitor de CD’s uma música gravada depois do grande incêndio de outubro de 2017, dedicada ao Pinhal do Rei.

Quando chegámos ao Parque de Merendas da Portela, cerca das 13 horas, eram cerca de duas dezenas as mesas que ocupavam apenas um dos lados do pinhal, tantas como no Tremelgo, e não havia diversões nem vendedores ambulantes como em anos anteriores. Na Portela, as casas de banho tinham um comunicado na porta, que anunciava o seu fecho desde o dia 13 de março, ao abrigo do plano de contingência da Câmara Municipal da Marinha Grande.

Com o programa das festividades levadas a cabo habitualmente pela Junta de Freguesia da Marinha Grande cancelado, foi marcado para o fim da tarde do feriado municipal, um programa cultural digital, organizado pela autarquia e transmitido no Facebook, Youtube e site do município, dedicado à história do concelho, e que inclui a exibição do filme da recreação histórica dos 250 anos da chegada de Guilherme Stephens à Marinha Grande.

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