Face à polémica instalada em torno da deslocalização do Monumento evocativo do 18 de Janeiro de 1934 para a meia lua junto à rotunda, do lado do Parque Mártires do Colonialismo, Álvaro Neto Órfão, antigo presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, pronunciou-se dando-nos conta da sua visão e conhecimento dos factos, numa entrevista que concedeu, em sua casa, ao Jornal da Marinha Grande, no passado dia 2 de novembro

 

Autor queria mudança do Monumento

Álvaro Órfão recorda-nos que, na qualidade de presidente da Câmara da Marinha Grande, conheceu o autor da obra, o Mestre Joaquim Correia, - e a sua vontade expressa de ser colocada a estátua na meia lua. Comungando da sua opinião, entende que ficariam facilitadas as visitas ao monumento. A futura localização seria livre das dificuldades que o trânsito provoca à visita próxima de crianças, estudantes, turistas ou simples passantes, e enriqueceria o local do ponto de vista urbanístico. A estátua estaria de frente para toda a praça e não apenas virada para as lojas da zona. Espoletava, e permitiria, no seu entender, a atenção ao detalhe, a um olhar preciso, ao estudo e conhecimento dos próprios painéis que contam a história do vidro, dos vidreiros, da “terra” da Marinha Grande.

Questiona até o interesse de andar à volta da estátua. E, exemplifica. “Olhemos para o que se passa Lisboa, com a estátua do Marquês de Pombal, na praça do Marquês de Pombal, que apenas se destaca por estar numa enorme rotunda e, por isso, muitos lisboetas tratam esta praça como “Rotunda do Marquês” ou, simplesmente, “Rotunda”. A mais movimentada da cidade e, talvez, do país. Mas muito poucas pessoas sabem o que está lá, e muito poucas veem a figura de um vidreiro, diria que apenas 1% é que sabe”.

A política deve ser solução e não problema

O antigo presidente afirma que não tem qualquer interesse político, apenas critica o que é possível de criticar como, por exemplo, ser dado o nome de uma Rua – e não de uma Avenida – ao Dr. Manuel Francisco Alves: “um Homem bom, que tanto ajudou os Marinhenses, no exercício das suas funções de médico”. Ou ser dado o nome “José Gregório” a uma rotunda que faz parte de uma Avenida que já tem esse nome.

Álvaro Órfão não aceita que os oponentes a esta mudança se façam valer de interesses políticos, apenas usando “a mentira e a manipulação”. E não permite que se ponha em causa a identidade de luta da Marinha Grande: “eu não ofendo a identidade da minha terra e dos meus conterrâneos com interesses políticos. Eu sou um Marinhense de gema, sou descendente de família ligada ao vidro. A minha linha hereditária remonta ao séc. XVII. E já fiz coisas pela minha terra, por isso posso questionar”.

Em 1996, realizou-se a primeira Bienal de Artes Plásticas. Um evento que contou com uma mostra de Pintura e Escultura, destinada a jovens artistas, bem como com um espaço reservado para o escultor marinhense Joaquim Correia apresentar parte da sua obra. Foi nessa altura que o presidente da Câmara Álvaro Órfão revelou que seria o espaço dos Barosas o futuro Museu Joaquim Correia.

O espólio começou por estar exposto na cidade do rio Lis. “Em carta, ao Senhor Presidente de Leiria foi feito o meu pedido de retirar as peças da sua cidade. A Senhora Fátima Garcia, dirigente dos serviços culturais da Câmara da Marinha Grande, um mês depois, foi buscar todo o acervo, a meu pedido”. O acervo do Museu Joaquim Correia é, hoje, constituído por várias coleções de obras de arte e por estudos, criados pelo escultor. Constam bustos, estátuas em bronze e gesso com e sem policromia, medalhas, desenhos e pinturas.

A inauguração do Museu Joaquim Correia ocorreu no dia 5 de dezembro de 1997. “Uma justa homenagem ao Grande Mestre. O reconhecimento do concelho ao Artista e à sua família. A obra que era do escultor, agora é de todos nós”, afirma o antigo presidente.

Mas outras coisas mais foram feitas durante a sua atividade camarária, nomeadamente um espetáculo de rua: “O 18 de Janeiro de 1934” que ocorreu em 1998. No Cemitério da Marinha Grande foi mandado construir o memorial do 18 de Janeiro, com nomes dos intervenientes do movimento. No ano da Expo, em 1998, celebraram-se os 250 anos da indústria vidreira na Marinha Grande com inúmeras atividades culturais, realizou-se a II Bienal de Artes Plásticas, foi feita uma edição de livros, uma edição filatélica (um envelope e quatro selos que constam na coleção de selos dos CTT desse mesmo ano), com uma medalha comemorativa, e uma produção de 100 garrafas de vidro, em cor verde. Foram feitas obras de intervenção na Avenida José Gregório, que foram concluídas no seu primeiro mandato.

Para Álvaro Órfão não restam dúvidas, e marca a sua posição, concluindo que “devemos honrar a nossa terra e a história dos Marinhenses”, perpetuando a memória do movimento operário marinhense em 18 de Janeiro de 1934 e cumprir a vontade do autor do monumento, Mestre Joaquim Correia.

 

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