Um grupo de vidreiros da região organizou-se e está a envidar esforços no sentido de a profissão vir a ser reconhecida, pelo Governo, como sendo de desgaste rápido

 

Ao JMG, Gil Ferreira, que trabalha na área do vidro há cerca de duas décadas, dá conta das principais dificuldades com que os vidreiros se deparam no seu dia-a-dia, desde logo a existência de turnos rotativos em função de os fornos de vidro trabalharem de forma ininterrupta.

“Os turnos são rotativos, em que se trabalha um mês seguido (sábados, domingos ou feriados, sejam eles Natal ou passagem de ano) para se poder parar por 6 dias, e nas férias para garantir que toda a gente pelo menos tira o mínimo obrigatório (11 dias úteis) trabalha-se dois meses e duas semanas para dar a todos férias merecidas”, explica o trabalhador.

Segundo Gil Ferreira, no sistema de turnos rotativos na indústria vidreira, um trabalhador pode começar a trabalhar numa segunda feira, das 5h da manhã às 13h, na terça feira das 13h às 21h, e na quarta das 21h às 5h, e assim sucessivamente, “sem parar um mês seguido”. De acordo com o vidreiro, este sistema causa não só distúrbios no sono como a nível alimentar, além de uma “vida pessoal inexistente”.

O operário refere que embora “a indústria tenha melhorado, ainda estamos aquém do desejável” no que se refere às condições de trabalho. Aponta que a sílica (areia), uma das matérias primas, “é usada na legislação portuguesa com um valor de concentração no ar mais permissivo do que as normas europeias”, a que acrescem elevadas temperaturas vindas dos fornos onde o vidro funde a cerca de 1500 graus. “O calor emana dos fornos e nota-se em toda a fábrica, o vidro em si circula a cerca de 600ºC, e toda a zona produtiva está sempre a temperaturas elevadas em que na primavera e verão podem-se registar temperaturas na área de trabalho de 60º e uns amenos 35 a 40ºC no inverno e outono”. O ruído elevado é outra das queixas, “com 110 decibéis com picos a atingir 118, em que a exposição deveria ser restrita a um período não mais de que uma hora e nós passamos por esses valores durante 7h30 de trabalho”.

Gil Ferreira alerta também para “a perigosidade do funcionamento das máquinas, pois os elementos mecânicos estão expostos a qualquer interação acidental de membros, as ferramentas de moldagem de garrafas sempre com temperaturas acima dos 350º”, e o perigo de ocorrência de incêndios no que se refere à utilização de químicos para, por exemplo, lubrificar as ferramentas de moldagem.

As dificuldades abarcam também a zona fria, com “o constante pegar em pesos (garrafas), temperaturas sempre na casa dos 30 a 40 graus, pois o vidro ainda não perdeu toda a sua carga térmica, como também os químicos associados a capas químicas para mais uma vez protegerem o vidro”.

Segundo Gil Ferreira, no vidro manual, “onde se emprega a sabedoria de manusear o vidro à mão com recurso a força braçal em que as temperaturas são também elevadas reduz-se o nível de ruído, mas o desgaste físico é intenso”, acrescentando que “80% da mão de obra fabril que permaneça no ramo há mais de 4 anos tem reconhecido a doença profissional ou por tendinites, silicose, enfisema ou mesmo perca auditiva”. As restantes doenças que estão relacionados com o desgaste, tanto pelos turnos como pelas condições de trabalho, são designadas como de doença natural, sublinha o vidreiro.

Gil Ferreira adverte que após os 57 anos de idade, as dificuldades aumentam com trabalhadores a recorrer a baixas médicas e profissionais para poderem atingir o número de anos necessários para pedir a reforma.

Os vidreiros estão, assim, a encabeçar uma luta para verem reconhecidas as incapacidades permanentes causadas pelas doenças referidas e para que a profissão de vidreiro seja reconhecida como de desgaste rápido e pediram na última segunda feira, 28 de outubro, em reunião do executivo camarário, o apoio do Município da Marinha Grande para levar esta luta a bom porto.


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