Já está concluído o primeiro forno oxi-híbrido na Europa, dedicado à produção de vidro de mesa, e está instalado na Marinha Grande. Da responsabilidade da Crisal, o projeto foi apresentado a 29 de outubro, durante o Open Day ECP: Soluções para a Cristalaria, no âmbito da Agenda Mobilizadora Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência

 

A sessão decorreu no auditório do CENTIMFE, na Zona Industrial, reunindo empresas, entidades do sistema científico e parceiros institucionais, para mostrar de que forma está a Crisal a concretizar investimentos que reforçam a competitividade e a resiliência do setor.

O encontro iniciou com a intervenção de Célia Gonçalves, diretora financeira da Crisal, que realçou a dedicação e colaboração entre as equipas, parceiros e entidades que integram o consórcio e contribuem para o seu sucesso, destacando “a visão estratégica e a capacidade para inovar” que este tipo de projetos demonstra.

Seguiu-se Carlos Viegas, diretor industrial da Crisal, que deu conta de todo o trabalho desenvolvido na empresa no âmbito do projeto. Antes, fez um breve enquadramento da Crisal, que emprega cerca de 400 trabalhadores, produz vidro de mesa, exporta para mais de uma centena de países, e que tem uma capacidade instalada de produção de mais de 100 milhões de unidades por ano.

Frisou que a agenda ECP visa aumentar a competitividade e a resiliência das empresas, bem como potenciar sinergias na área da inovação com os sistemas de saber para que cada vez mais os produtos sejam diferenciados e acrescentem valor.

Aposta na inovação

Segundo o diretor industrial, esta é uma indústria de capital intensivo, com projetos pensados a 15/20 anos, em que “não se podem fazer testes”. “Tínhamos que tomar uma decisão já que o outro forno estava em fim de vida. Ou continuávamos com o mesmo sistema, ou apostávamos na inovação”, afirmou.

Carlos Viegas apresentou o projeto de implementação do novo forno oxi-híbrido, para melhorar a eficiência energética, a qualidade do processo produtivo e reduzir de forma significativa as emissões de dióxido de carbono.

Explicou que o investimento rondou os 28 milhões de euros tendo em conta todas as infraestruturas necessárias. Trata-se de um projeto pioneiro a nível europeu, com uma capacidade de fusão de 90 toneladas/dia e com diferentes combinações energéticas, níveis de eletrificação e combustão com gases renováveis, como o hidrogénio verde e o biometano. Neste âmbito, a Crisal apostou também na autoprodução de energia elétrica, com resultados satisfatórios, mas que podem ainda melhorar.

O responsável recordou que a Crisal foi a primeira empresa a assumir o compromisso para o consumo de hidrogénio, via pipeline, considerando que apesar de mais caros, estes vetores energéticos podem vir a ser competitivos no médio longo prazo. A empresa está ainda a criar condições técnicas para aproveitar o casco e outros resíduos da produção, reduzindo ao máximo o uso de matérias primas virgens e apostando na circularidade.

Hidrogénio verde aguarda licenciamento camarário

Seguiram-se as intervenções de Andreas Schneck e Marco van Valburg, da Leerdam Crisal Glass, que abordaram a temática do “Desenvolvimento e otimização de fornos oxi-híbridos para a indústria do vidro”, realçando que projetos desta natureza levam entre 9 a 10 anos a desenvolver e enaltecendo o contributo das equipas para o sucesso do projeto implementado na Crisal. Segundo os responsáveis, “no final o que importa é a qualidade do vidro” e a satisfação dos clientes, anunciando que o próximo forno deverá ser renovado já em 2028.

Manuel Ferreira, da Rega Energy, foi o orador seguinte e que abordou o tema “Gases renováveis - Diversificação, Complementaridade e Resiliência”. Deu conta dos custos acrescidos da descarbonização, mas considerou que é mandatório investir, frisando que as soluções agora definidas vão permanecer no mercado nos próximos 15 anos.

O responsável falou sobre o projeto para produção de hidrogénio por via da eletrólise na Marinha Grande, que permitirá também a produção de oxigénio para alimentar as indústrias da região.

Realçou a “oportunidade” de tentar fazer algo na Marinha Grande que já existe noutros países, mas que pode ajudar na diferenciação e competitividade do território. Defendeu o abastecimento por pipeline dado o elevado consumo necessário, cerca de 13 camiões/hora de hidrogénio para as necessidades da indústria, e anunciou que, “se tudo correr bem, avançaremos com a operação em 2027”, após 5 anos de preparação do projeto.

Segundo Manuel Ferreira, o projeto está na fase final de licenciamento, aguardando, no final do presente ano, poder levantar junto da autarquia da Marinha Grande a licença para avançar com a construção das condutas. Para Manuel Ferreira, o biometano será também uma das soluções a adotar, tratando-se de um gás natural renovável, já “maduro” em alguns países europeus ao nível das infraestruturas.

Foram ainda oradores Pedro Amaral Jorge e Sara Freiras, da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), que abordaram o tema “As renováveis, a descarbonização e o aumento de competitividade da indústria do vidro e da cerâmica”.

“Um exemplo claro da capacidade” do País

O Secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, impossibilitado de marcar presença no evento gravou uma mensagem em vídeo na qual considerou a agenda mobilizadora “um exemplo claro da capacidade de Portugal”, realçando o investimento na ordem dos 118 milhões de euros. Para o governante, projetos desta natureza, “são o reflexo da colaboração entre empresas, centros tecnológicos e entidades públicas”, dando conta que estão a ser implementadas medidas, como apoio às indústrias de maior consumo energético, redução de burocracia e simplificação de processos, com vista ao reforço da competitividade do país no estrangeiro.

A sessão de encerramento ficou a cargo de Cátia Carreira, responsável de Inovação da Vista Alegre Atlantis, entidade líder do consórcio que gere a agenda mobilizadora, que sublinhou que “na Crisal, os desafios estão a ser traduzidos em soluções concretas”, considerando que estes “exigem conhecimento, cooperação e uma dose de coragem para repensar os processos produtivos” e que podem “alavancar o vidro português”.

A responsável frisou o dinamismo das equipas, bem como o percurso coletivo de todos os envolvidos na agenda e que “vai levar à aceleração da transição verde nos dois setores, vidro e cerâmica”.

A agenda, iniciada em janeiro de 2022 e com término aprazado para 31 de dezembro deste ano, arrancou com 33 produtos, processos e serviços (pps) e um investimento de 100 milhões de euros, encontrando-se agora com 40 pps e um valor global de 118 milhões. “Um esforço que reflete a vontade de ir mais longe nestes temas”, concluiu Cátia Carreira.