- Escrito Por: Redação
- Política
- 07 novembro 2024
No dia em que se completaram 7 anos sobre o trágico 15 de outubro em que 86% do Pinhal do Rei ficou reduzido a cinzas, o Município da Marinha Grande promoveu uma homenagem à mata, e pediu que se cumpra uma promessa feita há mais de 150 anos: a criação, no Parque do Engenho, do Museu Nacional da Floresta
Uma sessão solene, a inauguração de uma exposição sobre os 200 anos da Administração Geral das Matas do Reino, a emissão de selos comemorativos do Pinhal do Rei pelos CTT e a plantação simbólica de duas centenas de pinheiros, constituíram o programa da “Homenagem ao Pinhal do Rei”, que o Município da Marinha Grande e a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria levaram a cabo na manhã da última terça feira, 15 de outubro.
Num dia de má memória para os marinhenses, e não só, o presidente da Câmara frisou na sua intervenção, no Teatro Stephens, que além de se prestar “sentida homenagem” ao Pinhal do Rei, é tempo de celebrar o seu “renascimento”, relembrar o seu valor histórico e natural e projetar um futuro “mais sustentável e resiliente”.
Aurélio Ferreira frisou a necessidade de preservar esta herança natural para que continue a fazer parte da identidade do território e da história do país, considerando que “muito ainda há por fazer no processo de reflorestação”.
Lembrando que existem no concelho três matas nacionais geridas pelo ICNF, numa cobertura superior a 60% do território, o autarca considerou tratar-se de “um recurso estratégico para a Marinha Grande e para o país”, dando relevo à forte ligação da população com a mata mais antiga e emblemática do país, que conta 800 anos de história. Lembrou a criação, há 200 anos, na Marinha Grande, da Administração Geral das Matas do Reino, que iniciou em 1824 um “trabalho pioneiro de gestão e conservação florestal” a nível nacional.
“Ajudem-nos a concretizar este sonho”
Aurélio Ferreira recordou que o pinhal “não se reergue num curto espaço de tempo” como seria desejável, mas que o trabalho de reflorestação deve continuar a ser feito pelo ICNF, em parceria com o Município e o acompanhamento do Observatório do Pinhal do Rei, “co-responsabilizando todos na elaboração de propostas de intervenção”. Alertou para a necessidade de cuidar da mata que não ardeu, do pinhal entretanto nascido, e dos espaços de lazer e estradas florestais, designadamente do troço de 2,7 quilómetros em Pedreanes, muito usado pela população.
Aurélio Ferreira apelou à criação de sinergias para que a recuperação da mata “seja uma realidade” e para devolver o legado do pinhal às novas gerações. O edil apontou como “projeto estratégico” para a Marinha Grande a edificação do Museu Nacional da Floresta, uma “muito antiga e justa ambição” de um território “que se assume como berço da técnica e gestão da floresta nacional”. A este respeito lembrou que, em 1999, a Assembleia da República criou, pela Lei 108/99, o Museu Nacional da Floresta na Marinha Grande, mas que esta é uma promessa com mais de 150 anos, uma vez que, “a primeira referência à sua implementação data de 7 de novembro de 1872” pelo administrador à data, Ernesto de Faria.
Assim, pediu ao Presidente da Assembleia da República e aos membros do Governo presentes: “são mais de 150 anos de promessas, ajudem-nos a concretizar este sonho para a floresta em Portugal e em particular para os marinhenses” e considerou que o Parque do Engenho, onde tudo nasceu, apesar de estar na alçada do Fundo Revive Natureza, tem espaços suficientes para instalar o museu e apostar no turismo. Pediu “a intervenção” do Governo para a concretização do projeto, designadamente o financiamento, uma vez que o Município já identificou o espaço, tem o espólio e um plano estratégico.
Na sessão foram ainda intervenientes João Bento, da comissão executiva dos CTT, que deu conta da coleção de selos em homenagem ao Pinhal do Rei em que, pela primeira vez, foi usada uma técnica inovadora a nível mundial, com uma tinta feita com base no pó de pinhas recolhidas no pinhal, a que acresceu a escolha de papel proveniente de florestas geridas com base na sustentabilidade, uma preocupação crescente dos CTT.
Gonçalo Lopes, presidente da CIMRL, interveio para reafirmar o compromisso com a recuperação do Pinhal do Rei, símbolo incontornável da região e do país, bem como a necessidade de “fazer mais e melhor” e de “mostrar e explicar à população que este processo leva tempo, mas está em curso”. Considerou que todos devem participar “de forma ativa”, que o pinhal “deve ser um exemplo de biodiversidade” e que devem ser desenvolvidas estratégias para tornar os territórios mais resilientes, desde logo apostar no seu ordenamento, na limpeza das florestas e no reforço dos meios de combate. O autarca frisou ainda a importância de “resgatar o nosso mar verde de tranquilidade, esperança, oxigénio e vida” e de o valorizar “como bem comum”. “A boa vontade não basta, precisamos de compromisso cívico e político”, concluiu.
O pinhal que “todos queremos ver renascer”
Já o Secretário de Estado da Agricultura, João Moura, enfatizou a importância da mata do Pinhal do Rei, projetada “com inteligência”, e referiu que o incêndio de 15 de outubro de 2017 afetou a vida dos marinhenses e das populações envolventes, que sofrem agora com os ventos fortes oriundos do mar. Colocou o foco no futuro e no que se pode aprender com o sucedido, considerou que o trabalho do ICNF “é o trabalho possível”, mas que não se devem “baixar os braços”. Lembrou a importância económica da mata para o país e apelou a que se olhe para a floresta de forma “diferente”, considerando o lazer, mas também a produção de madeira e de outros produtos. “De outra forma, continuamos a ter um país abandonado”, no que se refere ao uso dos territórios.
Para o governante, deixaram de ser valorizadas as atividades do mundo rural, agrícola e florestal, o que considerou ser “preocupante”, e sublinhou que estas áreas também têm ao dispor altas tecnologias, falta é saber divulgá-las.
O Secretário de Estado disse que o Governo deve apoiar a instalação do Museu Nacional da Floresta na Marinha Grande, dando conta da existência de uma relação” muito estreita” com o Município. “Têm tudo para fazer um bom casamento”, apontou.
Seguiu-se a intervenção do presidente da Assembleia da República para quem “as tragédias não se celebram, mas também não se esquecem”, acrescentando que “ensinam lições valiosas” e “marcam o país”. José Pedro Aguiar-Branco lembrou o património destruído, mas também os bombeiros, proteção civil, autoridades locais e cidadãos anónimos que ajudaram no combate às chamas. Considerou o Pinhal do Rei o “pulmão de Portugal”, que “todos queremos ver renascer”, sublinhando a existência de “profundas assimetrias no país”, entre litoral e interior, pelo que defendeu uma maior coesão territorial. “Com criatividade e visão é possível ter empregos em zonas de baixa densidade”, referiu o responsável, que desejou que o pinhal possa ser devolvido à grandeza de outrora, com ordenamento e vigilância. Em jeito de brincadeira, referiu julgar que a promessa de construir um novo aeroporto em Lisboa fosse a mais antiga do país, mas concluiu que será a instalação do Museu da Floresta, pelo que o Governo terá de ver de que forma se conseguirá cabimento orçamental para a concretização deste projeto.
Interveio ainda Raul Moreira, da Fundação Portuguesa das Comunicações, que tem patente no Teatro Stephens uma exposição. A iniciativa contou também com a presença da Ministra da Juventude, a marinhense Margarida Balseiro Lopes.
Seguiu-se a plantação simbólica de duas centenas de pinheiros no talhão 273 da mata, junto ao Tremelgo, com crianças de várias escolas do concelho.






