Estranho mundo este em que vivemos; ou menos mal, e até porque o mundo também não vive dias muito famosos, “estranho Portugal este em que vivemos”


O primeiro-ministro vai somando avenças (tentando passar a imagem que a sua empresa, fundada por si e com clientes angariados por si e que a fazem faturar centenas de milhares de euros, é autónoma de si mesmo), o Presidente da República assobia para o lado e os ministros do Governo somam presenças no panorama televisivo nacional a defender o indefensável em vez de se preocuparem com a governação. O que seria com os perigosos “esquerdalhos” a tomarem conta do comentário político…

A triste imagem dos membros do executivo governativo junto do seu suposto líder no comunicado ao país de sábado não passa de uma tentativa de desvalorização e branqueamento do fenómeno a que assistimos. Um suposto líder, prepotente, que se faz valer da sua posição e que procura transformar um assunto pessoal num assunto de Estado. E conseguiu. Conseguiu-o da maneira mais lamentável de todas, a vitimização e o atribuir de culpas à oposição por supostamente “explorar” este caso.

O que leva o líder de um governo democraticamente eleito a achar que está acima de qualquer escrutínio? Também partilho da sensatez de muitos quando dizem que o primeiro-ministro foi longe demais ao ter trazido a público as suas declarações de rendimentos, mas foi necessário. Mas se foi necessário, tornou-se manifestamente insuficiente; insuficiente porque continua a haver explicações por dar, e Luís Montenegro furtou-se a dar essas explicações. Se é certo que todos temos um passado e ele é desejavelmente mais fruto do que controlamos do que o que não conseguimos controlar, mais certo é que a dignidade é um valor que não se deve levar a jogo.

Luís Montenegro fez chantagem com os 230 deputados eleitos por todos nós e brincou com a democracia. Tornou a sua vida numa novela e agora empurrou a “solução” para o Parlamento.

Lançou o isco da moção de confiança, que foi pronta e estranhamente mordido pelo PCP, que de tão organizado e metódico, deveria ter previsto todos os prós e contras do lançamento de uma moção de censura. Erraram e prolongarão este terrível episódio que tem sido a governação da direita, mas pelo menos conseguem evitar eleições e a contínua redução do seu grupo parlamentar.

Esperava-se mais perspicácia de um dos partidos estruturantes da democracia portuguesa.

O primeiro-ministro demonstrou irresponsabilidade e falta de jogo de cintura para lidar com os problemas que o próprio criou quando, por exemplo, juntamente com o salário de primeiro-ministro, recebia uma avença mensal de 4.500 euros por parte de uma empresa que detém licenças de exploração de jogos de fortuna ou azar e de apostas desportivas. Licenças essas que expiram no final deste ano e que muito provavelmente será este governo, liderado pela pessoa que negociou com o Estado (enquanto representante legal dessa empresa) a concessão das mesmas licenças, a decidir pela sua prorrogação.

Onde anda o bom senso e a ética republicana tão propagandeada por esta direita?

Rui Tomás
Militante do PS