As comemorações do 75.º aniversário da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vieira de Leiria decorreram no último sábado, 3 de setembro, e contaram com a presença das mais altas entidades em matéria de Proteção Civil, com destaque para a Secretária de Estado Patrícia Gaspar, que ouviu queixas e prometeu mais meios


Manuel Oliveira, vice-presidente da Assembleia Geral, foi o primeiro a falar, destacando os “serviços inestimáveis” prestados à comunidade pela Corporação da Vieira nestes 75 anos de existência, na defesa e proteção de vidas e património. Realçou o papel dos bombeiros e os riscos da sua atividade na primeira linha do socorro e apoio à população, bem como a sua “coragem e altruísmo”, sempre presentes “nos bons e maus momentos”, salientando que o foco deve estar no futuro e que devem ser evitados erros.

Lembrou momentos “difíceis” dos últimos anos, como o incêndio que devastou o pinhal, e frisou que as entidades oficiais devem dotar os bombeiros voluntários de mais meios para o combate aos incêndios, e de recursos “eficazes e modernos”. Lembrou que “o voluntariado está cada vez mais difícil” e que é necessário atrair jovens.

 

Falta viatura de combate a incêndios urbanos

O comandante João Lavos realçou o crescimento da corporação nestes 75 anos, em formação, experiência e empenhamento e focou os últimos 5 anos, lembrando o incêndio de outubro de 2017, em que dois bombeiros da Corporação ficaram feridos – Sérgio Rigueira e Ruben Coelho, e a tempestade Leslie, em 2018, que exigiu uma intervenção rápida durante a noite. Apontou como necessidades a existência de uniformes para as diferentes ocorrências; a melhoria do conforto das instalações do quartel, onde muitos bombeiros pernoitam; e a composição das equipas para garantir o socorro e cujo reforço é necessário para dar uma resposta mais célere às ocorrências. Como grande lacuna referiu a falta de um veículo de combate a incêndios urbanos.

Alertou para a necessidade de se refletir se os bombeiros voluntários serão a melhor solução, que depois de 24 horas de combate têm de ir para os seus empregos, e que tocar a sirene “só vai despertar a população”. “Não se pode tocar a sirene à espera de ter uma equipa preparada para atuar”. Questionou se os elementos do Comando não deveriam ser funcionários da instituição, apontou problemas na formação certificada, sugerindo que haja workshops anuais para atualização de conhecimentos e que os condutores também sejam abrangidos, alertando que os bombeiros cada vez são em menor número. João Lavos indagou se o caminho será a semiprofissionalização, alertou que os ordenados, pouco acima do salário mínimo, são pouco atrativos, e questionou se os bombeiros são a espinha dorsal da Proteção Civil e se são fundamentais. “Nunca dissemos que não apesar das dificuldades”.

Bombeiros atravessam “grave crise”

José Rodrigues, presidente da Direção, salientou as “muitas dificuldades” trazidas desde março de 2020 pela pandemia, quando a equipa diretiva somava apenas dois meses de trabalho; que em 75 anos o tempo e as circunstâncias mudaram, há novas exigências, mas o dever continua a ser cumprido; que é preciso criar condições de trabalho para melhorar a gestão das emergências e a eficácia do socorro. Lembrou que quando há falhas a montante, “exige-se que os bombeiros estejam em todo o lado, espera-se um milagre”, considerando que “ninguém tem as valências todas” e que se trata antes de uma “questão de organização”.

“Os bombeiros não podem continuar a ser o parente pobre do associativismo”, afirmou, nem “andar de mão estendida a pedir sobras orçamentais”, e considerou que os bombeiros estão a subsidiar o Estado no transporte de doentes não urgentes.

José Rodrigues assumiu que as associações de bombeiros estão a viver uma “grave crise de sustentabilidade económica e financeira”, considerando “urgente” a reformulação do modelo de financiamento. “Os bombeiros exigem respeito, solidariedade e apoio”.

O presidente da Direção alertou que “apesar da imaginação dos diretores é impossível criar soluções” face ao momento atual, com elevados gastos em eletricidade e combustíveis, dando como exemplo que entre 1 de janeiro e 30 de agosto deste ano, os Bombeiros da Vieira fizeram 290 mil quilómetros, apoiaram 4.600 utentes e gastaram 54 mil euros em gasóleo.

“O Estado não deve olhar para os bombeiros como o braço armado da proteção Civil a quem se dão esmolas”, disse, considerando que o dinheiro entregue às corporações deve ser visto como um investimento na segurança de pessoas e bens.

Já Rui Rocha, da Federação de Bombeiros do Distrito de Leiria, em representação de 25 corporações, apelou à sensibilidade da Secretária de Estado para as questões que urgem ser resolvidas na Proteção Civil, dando conta da apreensão face aos incêndios dos últimos meses, quis saber o ponto de situação do projeto piloto iniciado em 2017 para o cadastro florestal no que se refere ao ordenamento do território, e que “devem ser comprados rapidamente meios aéreos, decisivos para evitar danos maiores”. “Não se pode olhar para os mais de 106 mil hectares ardidos este ano como uma fatalidade com que temos de nos conformar, mas sim criar condições para inverter este cenário”, sublinhou. Fez votos que o Portugal 2030 possibilite às corporações renovar os seus veículos de combate a incêndios, disse acompanhar a posição da Liga de Bombeiros Portugueses, que discorda da divisão do distrito em duas sub-regiões, “perdendo mais-valias”, pediu que sejam melhorados os valores/hora pagos no âmbito do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais, e que sejam criados apoios sociais de âmbito nacional aos bombeiros voluntários.

Profissionalização será o caminho

António Nunes, presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, considerou que “faltam apoios aos bombeiros” e que “quando existem são insuficientes”, que “os bombeiros têm vindo a sentir que não são bem tratados pois apesar de se dizer, em cerimónias e gabinetes que são essenciais e imprescindíveis nas sociedades, quando se olha para os apoios a situação é diferente pois na base está o dinheiro”. Apelou à reflexão, lembrou as verbas elevadas que são necessárias para aquisição de viaturas, formação e equipamentos, que as corporações não conseguem suportar, e que as associações devem mostrar as circunstâncias difíceis com que se debatem no dia a dia.

Saudou a autarquia pelos apoios que tem atribuído às corporações locais, afirmando que “os bombeiros serão sempre parte da solução” e parceiros, pedindo mais condições para o exercício do voluntariado, e saudando todos os bombeiros presentes.

Duarte da Costa, presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANPC), agradeceu aos bombeiros pelo trabalho prestado no dia a dia, e lembrou fatores como a seca extrema, o risco mais elevado de incêndio e a ocorrência de incêndios “mais perigosos”, aos quais os bombeiros não falham. Considerou os bombeiros como “uma verdadeira escola de cidadania”, que todos precisam de mais viaturas e equipamentos para terem mais segurança, mas disse desconhecer o que reserva o novo quadro comunitário de apoio (Portugal 2030). Apelou à capacidade de planear e que “esta é a altura de apresentar projetos”, pois “o Estado não chega para tudo”. Para o responsável, as condições de risco estão a aumentar e exigem novas condições de trabalho, considerando importante que o modelo de organização com os bombeiros assuma uma realidade baseada na profissionalização, mantendo uma matriz voluntária.

Referiu que as equipas de intervenção permanente são um bom caminho mas não são suficientes, defendendo que “o risco, no futuro, não se vence com dinheiro nem equipamentos mas com uma estrutura mais organizada”, apontando como parte da solução que os comandantes venham a ser profissionais, e que os bombeiros possam vir a ser incorporados numa estrutura profissional.

Já o presidente do Município marinhense destacou a importância e prontidão dos bombeiros que devem ser apoiados, que as diferentes entidades se devem unir no sentido de encontrar as melhores formas de os apoiar, e pediu o “comprometimento” de todos. A questão dos bombeiros é um assunto entre as centenas que Aurélio Ferreira tem para tratar no concelho, frisou, afirmando que “não valemos pelas palavras que dizemos, mas sim pelo que fazemos”.

“Os Bombeiros estão sempre na linha da frente”

 

A Secretária de Estado da Proteção Civil começou por agradecer a “frontalidade e sinceridade” das intervenções que a precederam, realçou os 75 anos de serviço público, de bem fazer e serviço à comunidade dos Bombeiros de Vieira de Leiria.

Admitiu que o setor vive “um momento difícil”, e saudou os bombeiros que em todo o país “vão fazendo a diferença”, na segurança e tranquilidade, no dia a dia, com socorro efetivo. “Isto é um ativo que não tem preço”, acrescentando que se vivem “tempos desafiantes para todos”.

Patrícia Gaspar admitiu que quer em tempos de pandemia quer nos incêndios florestais “são os bombeiros que estão sempre no olho do furacão, sempre na linha da frente”. Para todos os que partilham responsabilidades na área do socorro, bombeiros e proteção civil, “os tempos são de transformação para uma nova realidade, onde as emergências tendem a ser mais complexas, com impactos mais severos e consequências mais visíveis para todos”.

“Temos trabalhado arduamente para encontrar soluções”, garantiu, lembrando os 20 milhões alocados no PRR só para o setor dos Bombeiros, assumindo que “não serão suficientes para as necessidades”, e que vão tentar complementar com o novo quadro comunitário de apoio em que já estão a trabalhar, numa lógica florestal e urbana.

“Temos vindo a apostar na profissionalização dos corpos de Bombeiros, é um percurso que não vai ser fácil e que vai levar muito tempo, mas já temos perto de 600 equipas de intervenção permanente autorizadas em todo o país, cerca de 3.000 bombeiros”, considerando que “é o embrião, o primeiro passo para o que possa ser no futuro uma maior profissionalização do setor sem perder a matriz voluntária, que nos permite duplicar, triplicar o efetivo”.

A governante salientou ainda aspetos como a resiliência, a coragem e a entrega dos bombeiros, que dizem sempre «presente», dando conta de que está “orgulhosa” e que tem “absoluta confiança no dispositivo da Proteção Civil e em todos quantos o integram”, considerando que o trabalho feito “é o melhor dentro das condições existentes”. Ao presidente do Município marinhense lembrou que cada euro gasto na prevenção com bombeiros e proteção civil são 8 euros que se poupam no combate, considerando que “os bombeiros são o melhor ativo” que o autarca tem para “poder dormir descansado”. “Quanto mais resiliente for o patamar local menos se terá de atuar”.

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