É com sentimento de “dever cumprido” que a vice-presidente da autarquia sairá no final do mandato. Ana Alves já anunciou que não será recandidata a funções executivas na Câmara da Marinha Grande, mas assume querer continuar envolvida no projeto liderado por Aurélio Ferreira, pelo que se apresentará como cabeça de lista à Assembleia Municipal. Em entrevista ao JMG, mostrou-se certa de que o líder do +MPM será reeleito, afirmando que a sua governação “marca pela positiva” uma mudança no concelho

 

Por que razão decidiu não se recandidatar à Câmara nas próximas Autárquicas?

Foi uma decisão muito difícil. Faço parte deste projeto desde 2013 e quando em 2017 fui eleita pela primeira vez, e depois em 2021, então com funções executivas, senti que este é um desígnio coletivo de um grupo de pessoas que que pensou a sua terra, no sentido de um desenvolvimento e sonhou para ela um projeto, que desde o início sabíamos que não tinha apenas 4 anos, que era um projeto de médio e longo prazo. A decisão de ter aqui um momento de afastamento deste percurso na Câmara prende-se fundamentalmente por razões pessoais.

Continuo fortemente envolvida no projeto, na liderança do Aurélio, que tem sido um presidente extraordinário num enquadramento político altamente adverso, e estou com ele como estive desde 2013, e com toda a equipa. Apenas, talvez agora não seja o momento, do ponto de vista pessoal, que me permita ter aquilo que foi durante estes 4 anos, a minha entrega total à população.

Vejo o exercício autárquico numa plenitude de funções. Quando vim para aqui, sabia que tinha que estar 24 horas para as pessoas. E as pessoas exigem, e bem, porque é isso que é o poder local, que as pessoas que estão à frente dos destinos da terra estejam com elas nesses momentos difíceis. Durante estes 4 anos, foi isso que fiz.

Que balanço faz deste mandato?

Tive dois momentos fundamentais nestes quase 4 anos. Nos 2 primeiros anos com responsabilidades como vereadora, acumulava a vice-presidência, fui presidente do Conselho de Administração da TUMG e presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Há 2 anos houve alterações, decorrentes da saída dos 2 colegas das funções executivas, o que exigiu uma reorganização e entrámos num segundo momento. O primeiro período foi muito caracterizado pelo que tínhamos definido em termos programáticos, como a reorganização dos serviços e a implementação do processo de transferência de competências. Foi um dossier muitíssimo complexo, porque não tínhamos absolutamente nada preparado. Entrámos em funções dia 18 de outubro de 2021 e dia 1 de abril de 2022 tínhamos o processo implementado. Um processo com uma brutal complexidade, numa organização que tinha 300 trabalhadores e passa a ter mais 207 e mais 9 da saúde e a seguir o processo prolongou-se para o ano seguinte com mais 5 recursos humanos para a ação social, com novos edifícios municipais de educação num estado de degradação considerável, os edifícios da saúde, toda a gestão daquilo que é a vida nas escolas, e conseguir preparar basicamente em 3 meses este processo, mudou completamente a filosofia da organização. Acho que foi um processo notável, um trabalho de equipa que liderei. Foi um período de reorganização, em várias áreas sociais, para os próximos 5 a 10 anos de planeamento, em que herdámos zero.

Numa segunda fase, os pelouros foram reorganizados, passei a ter mais áreas de intervenção e entrámos num processo de consolidação, que ainda não está completamente concluído. Foi um processo de começar a ter alguns frutos do trabalho de planeamento, porque o processo de transferência não só exigiu do ponto de vista da “aquisição” destas transferências, mas também na implementação de todo o processo administrativo e de simplificação administrativa que fizemos, e essa diria que talvez seja a revolução mais silenciosa que temos. Ainda entrámos aqui com um modelo administrativo arcaico e isso também foi uma grande mudança. Por áreas setoriais, a Carta Educativa foi muitíssimo importante para o planeamento. Tivemos que dar prioridade às escolas secundárias, porque surgiram linhas de financiamento e estamos a falar de reabilitações com valores muito elevados, de 5 e 6 milhões de euros. Fizemos os projetos da secundária Pinhal do Rei, em fase de adjudicação de obra, e da Loureiro Botas, que não teve concorrente e temos que lançar novo concurso. Estamos a ultimar o processo da Guilherme Stephens e temos em curso o projeto da João Beare que é o primeiro que vamos converter em centro escolar.

Na Cultura, demos um salto gigante a partir do momento em que candidatámos o Teatro Stephens à rede de Teatros e Cineteatros Portugueses e abrimos uma porta muito grande para um processo de financiamento e uma programação cultural completamente distinta para a Comunidade, para os próximos 4 anos. Estamos a trabalhar públicos, a desenvolver a Comunidade, as associações. Foi um processo de grande mudança no paradigma da cultura no Concelho. Paralelamente, fizemos o estudo de valorização do património FEIS, que tem um plano de intervenção muito longo porque são muitos milhares de euros para reabilitar aquele equipamento. O Museu Joaquim Correia, que não estava morto, mas estava adormecido, é hoje um museu muito vivo, com uma grande dinâmica. Estamos na fase de reabilitação do Teatro Stephens, que estava com problemas estruturais, e temos o Auditório António Campos, que já está numa fase adiantada para a execução de obra em Vieira de Leiria.

Na área social, a transferência de competências permitiu-nos ter uma equipa que apoia centenas de pessoas, criámos o Fundo de Coesão Social para apoiar as situações de emergência e vulnerabilidade, e a maior parte dos apoios tem-se centrado na área do apoio à habitação.

Quando chegámos tínhamos a gestão de um parque habitacional, que grosso modo, significa um apoio à habitação para 183 agregados familiares e quando definimos a estratégia local de habitação, que nos permite um investimento que vai quase aos 40 milhões de euros, considerámos, em termos de diagnóstico, 625 agregados familiares, 1417 pessoas. Há uma parte que que tem que ver com a reabilitação de alguns fogos e outra parte que é a criação de blocos novos de habitação, um dos quais em fase de projeto. Nos dias de hoje é um desígnio prioritário e assumo essa dificuldade. Entrámos e não tínhamos projetos para fazer obras e neste momento já temos vários projetos para executar. Criámos o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes, o CLAIM, que desde outubro já atendeu mais de 200 pessoas, de 21 nacionalidades. E temos a creche da Ivima, que levámos a reunião de Câmara a abertura do concurso público para a exploração da concessão e que foi chumbado. Aguardo informação da Segurança Social ao pedido de parecer relativamente à abertura deste concurso público às 2 tipologias que permitem aceder ao programa da creche feliz por causa da gratuitidade. Temos 2 processos para criação de estruturas residenciais para pessoas idosas, uma das quais na Moita, e na área dos equipamentos de saúde, temos as obras de conservação que têm que ser feitas numa parte do Centro de Saúde da Marinha Grande e a construção do novo centro de saúde em Vieira de Leiria, num terreno que já está identificado.

Nos dois primeiros anos, tive também a área do associativismo e aplicámos pela primeira vez o regulamento de apoio às instituições sociais e associações culturais, desportivas e recreativas, que sem prejuízo das características e da avaliação que este regulamento merece, teve o grande mérito de fazer com que passássemos a apoiar todas as instituições de forma igual, o que não sucedia antigamente.

Qual foi o momento mais desafiante deste mandato?

Talvez o processo mais complexo no qual eu participei tenha que ver com a queda do Conselho de Administração da TUMG. Foi talvez o mais desafiante em termos do exercício das minhas funções. E também o processo das AAF’s e CAF’s no início do ano letivo quando o Tribunal de Contas nos notifica de que não iríamos ter o visto para o protocolo que tínhamos programado. Sou uma pessoa muito responsável, muito íntegra e estive ao lado dos professores e dos diretores das equipas, do pessoal não docente que me ajudaram na altura e numa relação muito próxima com os pais.

Voltando à queda do Conselho de Administração da TUMG, é um processo que ainda não está terminado…

O processo para mim, terminou. Depois fizemos uma auditoria no decurso da decisão do órgão executivo e remetemos para as 3 entidades com competência para o apreciar, no caso concreto o Ministério Público, a Inspeção Geral de Finanças e o Tribunal de Contas e esse processo decorre nas instâncias próprias.

A ex-administradora da TUMG esteve recentemente numa reunião do executivo onde referiu um processo que teria ganho contra a Câmara…

Não existe nenhum processo da Senhora administradora contra a Câmara. O processo a que se refere é na área do direito laboral que ela moveu contra a empresa municipal, que nada tem a ver com o Município. É apenas uma ação em que ela entende que tem direitos no âmbito da relação de trabalho que tinha com a empresa e avançou com uma ação contra a TUMG que tanto quanto percebi o Tribunal ter-lhe- á dado uma razão parcial na decisão de primeira instância. Cabe à TUMG fazer ou não recurso dessa decisão.

E que momento identifica pela positiva?

Posso dizer que vou ficar muito feliz se até ao final do mandato conseguirmos iniciar a obra na secundária Pinhal do Rei. Se me perguntar sobre os propósitos pelos quais mais me envolvi neste projeto político prende-se fundamentalmente por a educação ter outras estruturas educativas e por haver mais projetos educativos. A base da educação no Concelho é fundamental. Se eu tiver uma Pinhal do Rei a andar, se tiver uma Loureiro Botas e a seguir, Guilherme Stephens, João Beare e Várzea, isto é um caminho que temos que trilhar à medida que vamos tendo os projetos.

Não posso dizer que não tive momentos muito felizes também com a cultura, na área da ação social com a equipa e com projetos que eu diria que são mais pequeninos, mas muito significativos. Também não posso deixar de dizer que fiquei muito contente com o visto do Tribunal de Contas relativamente à piscina municipal, vamos agora começar a contratar a obra, ou seja, estamos a falar do momento em que estão a começar a sair os projetos em que andámos a trabalhar estes anos e, portanto, é um momento difícil para mim, porque foi um período de muita entrega e agora finalmente estão a surgir frutos muito interessantes e acho que tenho que estar feliz também por isso.

Para mim, este ciclo eleitoral é apenas mais uma fase do processo. Vou continuar ligada ao projeto, noutro órgão, mas não tenho dúvidas de que o Aurélio é um grande presidente e vai continuar a sê-lo e, portanto, estes projetos que estão a sair agora são fruto de muito trabalho. Não é só meu, é do Aurélio, é do João, é dos dirigentes, é dos trabalhadores do município. Às vezes custa ouvir as pessoas dizerem que os trabalhadores são isto ou aquilo. Para nós, eles foram fundamentais nestes 4 anos. Sem a equipa que tivemos internamente os resultados não seriam estes. Trabalhámos muito, mas as pessoas aqui agarraram-se também porque acreditam e abraçaram o sonho de fazer desta terra um território modernizado e isso também lhes custou muitas horas de trabalho e muito investimento. Temos elementos fundamentais nesta organização e tenho a certeza que, independentemente de quem estiver do ponto de vista político a trabalhar aqui, são pessoas com sentido de missão e de serviço público e isso é o mais importante. Para mim, o mais importante é que as pessoas vierem a seguir não estraguem o que está feito agora. Não estraguem, porque isto custou muito a produzir, este planeamento e a fase que já estamos de execução custou muito a chegar aqui. Deem continuidade, seja de que forma for, mas acho que está aqui um grande trabalho para os próximos anos.

Que ensinamentos é que estes anos em funções executivas lhe permitem retirar?

Talvez a principal aprendizagem que levo é de que todos nós fazemos parte de um trabalho coletivo, e só funciona se todos soubermos que estamos a cumprir essa missão para um bem maior, por isso não digo que é uma lição, mas é o consolidar deste bem maior e esta organização permitiu perceber isso. Às vezes quando há um setor ou outro que falha as coisas não têm o mesmo resultado. De facto, há uma grande mudança na cultura da organização, que também resulta de passarmos a ter muito mais pessoas a trabalhar nos circuitos.

Quando ocupamos estes lugares de maior responsabilidade, eles têm que resultar de uma grande capacidade, de termos firmeza e coragem para decisões difíceis, ter integridade e sensibilidade para gerir processos complexos, isso é fundamental para o progresso da organização, mesmo que às vezes possamos não ser assim tão populares com as nossas decisões.

Aquilo que levo daqui é o consolidar destes meus princípios, ou seja, a integridade, a honestidade, a correção, a lealdade, são valores que eu mantive nesta organização, fazem parte de mim e que vou continuar a levar para outras, porque para mim foram fundamentais neste processo. E mesmo em momentos muito difíceis não me desviei deles um minuto, portanto em momento algum eu saí destes princípios que me regem e acho que foi por isso que a população também me conferiu estas nobres funções, e isso devo à população, a oportunidade de estar aqui, porque alguém algum dia achou que eu teria capacidade para exercer estas funções.

Saio deste mandato com um sentimento de dever cumprido, mas continuo com sonhos no percurso. Eu quero continuar e gostava que este projeto continuasse para conseguir concretizar aquilo que estes 4 anos não permitiram. Na verdade, não posso dizer que o esforço que foi impresso neste processo não tenha sido altamente meritório para a população porque eu acho que fizemos coisas muitíssimo boas e sim, também diferentes e, portanto, acho que a nossa integração na gestão municipal foi um momento de viragem na história do concelho. Pode ainda não estar tudo visível agora, mas é seguramente um mandato que marca pela positiva a mudança no nosso concelho.

Há críticas negativas ao desempenho deste executivo, nomeadamente aproveitando o slogan dizendo que foi diferente, mas para pior. É esse o feedback que tem recebido?

Há 60% da população que não votou em nós, portanto se olhar para as redes sociais as pessoas que fazem esse tipo de comentários estão associadas a outras forças políticas. Não espero que pessoas associadas a outras forças políticas, que durante 4 anos os seus representantes nos órgãos municipais talvez não tenham tido até um gesto simpático ou humilde em reconhecer que fizemos muita coisa boa. Tudo o que é crítica construtiva aceito com a maior das humildades, agora um discurso destrutivo, que é sempre negativo, nalguns casos com maldade, com uma acusação que muitas vezes é mentira, eu olho para o lado, sigo em frente o meu caminho, e tenho muito trabalho para fazer.

Respeito a opinião de toda a gente, mas nunca posso ter a expectativa de ter pessoas que são ligadas à CDU ou ao PS a dizerem bem de nós. Infelizmente não faz parte da história desta organização e esse sim tem sido o handicap ano após ano do desenvolvimento do concelho. As pessoas não se unem verdadeiramente naquilo que é o bem comum.

Está confiante na reeleição de Aurélio Ferreira?

Não tenho a menor dúvida.

Já disse que está disponível para continuar a apoiar este projeto e por isso aceitou ser a cabeça de lista à Assembleia Municipal…

Exatamente. Eu estou com o Aurélio e com a equipa desde 2013, não tenho condições pessoais para continuar aqui, mas estou com o projeto e espero dar o melhor contributo que possa dar a um órgão altamente importante que é a Assembleia Municipal, o órgão deliberativo, fiscalizador, para um desempenho municipal próspero no próximo mandato.

Mudou alguma coisa na cidadã Ana Alves neste período?

Sou uma pessoa mais enriquecida. Aqui tive experiências, conheci pessoas muito boas e que também me ajudam a encher a alma e isso é algo que me vai acompanhar para o resto da vida. Também cresci profissionalmente, sobretudo porque estive sujeita e ainda continuo a ser sujeita a grandes níveis de pressão, e consigo olhar para esses momentos com maior maturidade, e a ter outra serenidade da forma como olhamos para a vida e para as organizações.

Deixo uma nota de agradecimento às pessoas que me permitiram ter esta experiência, e ao Aurélio por me ter dado a oportunidade de fazer parte da equipa dele e de construir com ele este projeto. Um obrigado muito especial às pessoas desta organização, que sem elas também não teríamos conseguido fazer o tanto que fizemos num período tão curto.