No mês em que completa 21 anos de direção do Jornal da Marinha Grande e 18 da Rádio Clube Marinhense, António José Ferreira reflete sobre o futuro dos media no nosso concelho. Apesar do otimismo, o responsável não esconde que há alguns perigos que a pandemia veio acelerar, designadamente a fuga de leitores para as redes sociais

 

A atual Direção do JMG completou a 15 de janeiro último, 21 anos de atividade. Como tem sido este desafio?

Absolutamente extraordinário, passou num ápice, com momentos muito enriquecedores e outros não tanto, pois a vida de jornalista é mesmo assim, tem altos e baixos. Mas, no essencial, olhando para os objetivos a que nos propusemos, o balanço é muito positivo até pelo facto de, nestas duas décadas, o Jornal da Marinha Grande ter passado de um pequeno jornal para integrar um grupo de media local com enorme potencial e uma marca muito respeitada no concelho, região e país e isso enche-nos de orgulho.

Neste período, o negócio viveu algumas mudanças, desde logo com a inclusão da RCM e, mais recentemente, em plena pandemia, da Marinha TV. Foram apostas acertadas?

No caso da Rádio Clube Marinhense, em 2004, fez todo o sentido, por duas ordens de razão. Por um lado, alargou o nosso campo de ação num processo de aquisição e mais tarde fusão que decorreu com serenidade, apesar das diferentes culturas organizacionais. Por outro lado, resolvemos o problema de uma cooperativa que estava moribunda e sem grandes soluções na gestão de um ativo muito importante no nosso concelho, que é hoje uma espécie de “menina dos nossos olhos”. Continuamos a acreditar muito no projeto e temos resistido a várias tentativas de meios nacionais em ocupar a nossa frequência.

A RCM é e será a rádio dos marinhenses e de quem a queira ouvir. Só lamento que tenhamos mais anunciantes de fora do concelho do que da Marinha Grande, o que significa que somos mais reconhecidos fora do que dentro. Note-se, por exemplo, que neste momento quer a Câmara, quer as Juntas de Freguesia não têm um único spot na rádio da sua terra. Isto não é normal. Eu que ouço muitas rádios de norte a sul, verifico que as autarquias comunicam muito através das suas rádios locais. Espero que, com o atual executivo, a política de comunicação se altere no sentido de olhar para os meios locais como essenciais para fazer chegar informação útil aos munícipes.

Em 21 anos de direção, qual tem sido o maior desafio?

Manter o jornal nas bancas e a rádio no ar. Tem sido um desafio diário, com grandes dificuldades desde o primeiro dia. Outro desafio tem sido convencer todos os presidentes de Câmara, de Junta de Freguesia e as demais forças vivas do concelho que devem apoiar os media locais, não entendendo como é que investem em jornais de fora do concelho. Note-se que a Câmara de Leiria, por exemplo, nunca comprou um anúncio no JMG ou um spot na RCM. Zero. Portanto, custa-nos a entender que a Marinha Grande continue a canalizar recursos para fora do concelho e deixe de apostar em quem paga aqui os seus impostos.

Mas os desafios são permanentes. As redes sociais vieram alterar a forma como os leitores e ouvintes se relacionam com os nossos meios e temos tentado fazer diferente, ou seja, estamos nas redes mas mantemos o nosso caminho. Tentamos não cair na tentação de oferecer conteúdos na internet gratuitamente pois isso faz com que deixemos de ter receitas e, um dia, os jornalistas deixarão de existir pois não haverá dinheiro para lhes pagar.

Diria, em jeito de síntese, que os maiores desafios estão para vir mas estamos precavidos para o que aí vem, pois acautelámos há muitos anos a máxima «fazer muito com poucos recursos». É esse o segredo do nosso sucesso.

Que feedback tem recebido das forças vivas e da população em geral relativamente à importância dos órgãos de comunicação do concelho?

Parece-nos que anda por aí muito boa gente anestesiada com as redes sociais, esquecendo que o que se passa aí é efémero. Quem quer investigar o que aconteceu no concelho há 30 ou 40 anos terá que ler o Jornal da Marinha Grande. E as forças vivas e a população em geral devem estar precavidas para a importância de ter meios de comunicação social independentes que lhes dão voz, que potenciam o que é positivo, mas que não falham quando é necessário. Olhe-se para o exemplo dos fogos: quem esteve ao lado das populações?

Infelizmente é só nessas alturas que olham para a rádio da terra com olhos de ver, esquecendo-se que vive apenas da publicidade que é cada vez mais escassa.

Ainda no âmbito da pandemia, quem falou sempre verdade durante estes quase dois anos? Quem combateu a desinformação que por aí andou? Em quem é que as pessoas confiaram?

Portanto, há que olhar com outros olhos para os media locais pois são o garante da isenção, do pluralismo e do rigor da informação.

Olhando para trás, consegue identificar um momento menos bom e, em contraponto, um momento alto?

O momento marcante foi, sem dúvida, quando em meados de janeiro de 2001, eu próprio, o Dr. João Cruz e o Dr. Mário Francisco investiram o seu dinheiro neste projeto, que mais tarde se alargou à aquisição da RCM e mais recentemente à construção do projeto MarinhaTV. Note-se que estamos a falar de meios que pertencem à população da Marinha Grande, não são nossos.

O momento menos bom neste trajeto foi ver a mata a arder sem que, até ao momento, alguém tenha sido responsabilizado. Custa-nos também que muitas vezes sejamos criticados injustamente quando a realidade é que trabalhamos diariamente para dar voz à população. Eu desejaria era de ver os críticos aqui do nosso lado, isso sim seria algo que gostaríamos que acontecesse.

Em 20 anos muito mudou, incluindo a forma como se acede à informação e temos hoje múltiplas plataformas à disposição. Já se falou na extinção das rádios, que os jornais em papel têm tendência a acabar… Qual é a sua perspetiva?

A minha perspetiva é que não haverá extinção nenhuma. A circulação de jornais pode decrescer, bem como os ouvintes de rádio. Mas a verdade é que as sondagens dizem que as rádios têm milhões de pessoas a ouvi-las e que os jornais continuam a ser lidos, embora admita que as gerações mais novas estão a migrar noutros sentidos. Quem pensa que os media de proximidade têm os dias contados, está muito enganado. Agora, é evidente que os jornais dependem dos leitores e dos anunciantes. Não há organizações sem pessoas como é impossível manter jornais sem leitores e rádios sem ouvintes.

Nos últimos 2 anos, a pandemia alterou a forma como nos relacionamos, como olhamos para a saúde, para o trabalho… Retirou algum ensinamento da situação pandémica?

A pandemia mostrou-nos que a saúde é o nosso bem mais precioso e que é possível trabalhar remotamente. Aqui foi possível produzir o jornal a partir de casa, programar a rádio à distância, fazer televisão através do Zoom, na perspetiva que a saúde dos nossos colaboradores é o bem mais precioso. E conseguimos vencer essa batalha até este momento, abdicámos de moratórias pois isso seria empurrar os problemas para o futuro e resistimos ao crédito fácil.

É verdade que tivemos que reduzir as nossas edições, até pelo facto de não sabermos se o papel poderia prejudicar a saúde dos nossos leitores. Aliás, aproveito para agradecer aos assinantes e anunciantes o apoio que nos foi dado e posso até partilhar que o gerente de um hipermercado da Marinha Grande nos contactou a perguntar o que necessitávamos. E só temos a agradecer que durante a fase mais difícil esse empresário duplicou o apoio ao JMG e RCM e gostaria aqui de agradecer publicamente ao Sr. Ernesto Cunha o gesto que teve para connosco.

 

Como antecipa os próximos 20 anos de vida dos órgãos de comunicação social do concelho da Marinha Grande?

Não sei responder a essa questão. Eu não serei seguramente diretor do JMG e da RCM, isso é certo. Mas estou certo que ambos continuarão a ter um papel relevante no nosso concelho e acredito que terão uma influência crescente. Como disse anteriormente, depende dos leitores e dos ouvintes. No dia em que sentir que a rádio, o jornal e a TV da Marinha Grande não têm qualquer relevância, nesse dia não hesitarei em tomar decisões. Mas o que sinto é exatamente o contrário, nos três meios.

Na MarinhaTV, por exemplo, temos hoje milhares de seguidores e as nossas reportagens são vistas por centenas e centenas de pessoas. Aliás, este é um projeto ímpar no nosso distrito, não há outro igual. Há bons jornais, rádios interessantes, televisões a dar os primeiros passos, mas reunir os três meios num único projeto não conheço outro igual aqui na região. Mas o grupo vai muito mais além pois congrega outro tipo de atividade numa lógica de diversificação.

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